Jornal O Debate

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Liderado por mulheres grupo de pesquisa que sequenciou genoma do novo coronavírus

Mensagens de orgulho e de parabéns se somaram às de defesa da pesquisa nacional

A dra. Ester está famosa. A nossa dra. Ester.” Exibindo um misto de orgulho e uma certa graça, o funcionário do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP) guiava a reportagem pelas escadas do prédio enquanto tentávamos encontrar a pesquisadora Ester Sabino no início da tarde dessa terça-feira, 3.

A médica, coordenadora brasileira do grupo de pesquisadores que sequenciaram o genoma dos dois casos de coronavírus no Brasil, está ela própria um tanto impressionada com a atenção que em recebido da mídia e de pessoas comuns desde a última sexta-feira. E não só ela. De maioria feminina, a equipe vive dias de fama – quase um assédio – inesperados nas ruas e nas redes sociais.

O feito rápido dos cientistas – de decifrar o genoma do coronavírus que aportou no Brasil apenas 48 horas após a identificação do primeiro caso da doença no País –, como noticiado no fim da tarde de sexta, logo virou tema de debate político. Mensagens de orgulho e de parabéns se somaram às de defesa da pesquisa brasileira.

A bioquímica Jaqueline Goes de Jesus, de 30 anos, que faz pós-doutorado em Moléstias Infecciosas sob orientação de Ester, afirma que até perfis falsos em seu nome surgiram nas redes sociais depois da divulgação dos resultados. “Não acho que foi por maldade, mas me senti um pouco invadida. Meu instagram tinha mil seguidores – todos pessoas que eu conhecia –, e de repente passou para mais de cem mil. Descobri que teve uma campanha por eu ser mulher, negra, nordestina”, afirma a pesquisadora baiana, de 30 anos.

O susto veio um pouco pela quantidade de compartilhamentos, comentários, novos seguidores e pedidos de entrevistas, mas também pela repercussão da pesquisa em si. “As pessoas falaram bastante de ter sido feito em 48 horas, e na hora a gente pensou: ‘mas isso é normal aqui dentro’. Depois vimos outros pesquisadores elogiando e pensamos: ‘puxa, acho que é uma grande coisa mesmo’”, diz Jaqueline.

Ela se refere ao fato de que a tecnologia usada para sequenciar o genoma do novo coronavírus já vinha sendo usado, por exemplo, para rastrear com a mesma rapidez a atual epidemia de dengue com a mesma rapidez – seu tema da pesquisa atual. Os pesquisadores do grupo vinham trabalhando há alguns anos em formas de simplificar e baratear os equipamentos que fazem o sequenciamento. Segundo Ester, isso foi possível por causa de cooperação em rede com pesquisadores do Reino Unido que já tinham trabalhado com a epidemia de ebola em 2014. Na ocasião, para fazer o sequenciamento com vírus nos países africanos com o surto, como Serra Leoa, os se- quenciadores começaram a ser reduzidos, o que facilitou o transporte e reduziu o custo.

Com a epidemia de zika, em 2016, esta tecnologia veio para cá e foi barateada, a ponto de ser possível reduzir o custo do sequenciamento de vírus de algo que variava entre US$ 500 a US$ 1.000 para um valor entre US$ 20 e US$ 40 por amostra. O aparelho agora consegue analisar até 20 amostras ao mesmo tempo.

Fonte: Estadão.