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Nós temos um campeão do mundo

Ex-pugilista são-manulense, Miguel de Oliveira, tem em seu currículo grandes conquistas e marcas históricas

Miguel de Oliveira, um são-manuelense por adoção, ocupa lugar de destaque na galeria dos grandes campeões de boxeadores brasileiros, ao lado de Éder Jofre, Servílho de Oliveira e Acelino Freitas (Popó), para citar apenas alguns. Foi em 1967, seis anos depois de ter se mudado para Osasco, que Miguel deu pas- sos iniciais de uma carreira que o levaria, algum tempo depois, a subir ao ringue para disputar em outros continentes o título mundial de boxe pelo Conselho Mundial. Foi assim que ele trouxe para o Brasil, em maio de 1975, o cinturão de campeão mundial de boxe dos médios-ligeiros.

São Manuel tem tudo a ver com as conquistas desse campeão. Foi aqui que, ainda na adolescência, Miguel começou a praticar o esporte.

SACO DE AREIA
A vida esportiva de Miguel de Oliveira é pontilhada de bons resultados, mas ela foi feita a custo de muito sacrifício. Ele deixou São Manuel quando tinha 14 anos de idade, em 1961, e o boxe já tinha entrado na sua veia. Ainda menino e quando ainda lhe sobrava algum trocado no bolso – fruto do trabalho precoce como “bombeiro” (garoto que na roça, se encarrega de levar água aos outros trabalhadores, para que estes não interrompam o serviço)-, ia as vesperais do Cine Paratodos, aos domingos. Foi numa dessas vezes que viu na tela um herói, fadado a ter em sua vida uma influência maior que a do Zorro, ou de Ruy Rogers, personagens do filme de sucesso daqueles tempos; Éder Jofre. Com a força dos punhos, e ainda uma admirável mobilidade, Jofre derrotara Eloy Sanchez e se tornara campeão mundial dos pesos galos.

Naquele dia, terminada a sessão, Miguel levaria nos olhos, mais que a imagem de seus caubóis, as cenas inesquecíveis daquele rápido e histórico documentário, que mostrava um mocinho diferente, sem revólveres ou cavalos, mas com a mesma valentia. Seu Bento, o pai, homem rigoroso, não via com bons olhos a paixão do filho pelos gibis, que depois de lidos eram trocados por outros numa espécie de feira fechada, que ele e seus colegas promoviam na porta do Paratodos. Pois bem, se o pai já ignorava o culto aos heróis dos gibis, não custava nada fazê-lo ignorar também a nova paixão. E dona Alzira, compreensiva como todas as mães, foi a testemunha solitária de seus primeiros golpes desferidos contra um saco de areia pendurado numa jabuticabeira da “Chácara do Matheus”, vizinho do matadouro e a época domiciliado ocasional da família.

AJUSTADOR
As peças começaram a se encaixar quando Miguel aceitou o convite do cunhado, Antonio Ferreira, que via mais futuro para seus braços fortes na oficina mecânica de uma das muitas indústrias de Osasco, onde morava. E aquele mesmo menino que admirava Éder Jofre partiu em busca de “um destino melhor”. O pai, a mãe e Suzana, a irmã menor, ficaram até que tivesses a certeza da vantagem de se mudar também. De fato em pouco tempo, a vida oferecia a Miguel mais que o modesto salário pago pela fábrica de náilon onde obteve seu primeiro emprego. Logo ele conciliava a função de aprendiz de mecânica industrial, na fábrica, com a de aluno no curso de ajustador mecânico do SENAI, às custas da empresa, e ainda com a de praticante de um esporte com o qual já possuía leves ligações –o boxe– sob a orientação do técnico Jair Ongaro, na academia da fábrica onde trabalhava.

Ongaro inscreveu-o no campeonato amador provido pelo finado jornal “A Gazeta Esportiva”. Miguel ganhou as quatro lutas do torneio e começou a ser ídolo entre os colegas de trabalho. Mas no ano seguinte foi derrotado numa semifinal e, por um momento, pareceu que o boxe ficaria definitivamente apenas como uma lembrança em sua vida.

Decepcionado, decidiu que seria ajustador mecânico e nada mais. Concluiu o curso no Senai e durante oito meses não quis mais ouvir falar de boxe. Mas não conseguiu resistir muito. Um dia, cedeu a força interior que insistia em arrastá-lo à academia, ao menos para assistir a um treino daqueles garotos, trocando golpes, esquivando-se, provocando sensação na plateia… Ele também sabia fazer aquilo e bem melhor… Voltou. Ainda bem: ganhou em 1966 o Campeonato Paulista e o direito de participar do Campeonato Brasileiro, na Bahia. Pela primeira vez viajou de avião. “Quase morri de medo”, lembra , mas não morreu e ganhou também o Campeonato Brasileiro. Faltava apenas o Torneio dos Campeões. Venceu-o. No ano seguinte , ganhou novamente o Campeonato Paulista, o Brasileiro e o Torneio dos Campeões (hoje disputado com o nome Forja dos Campeões). Desta vez, os avião o levaria mais longe: ao Canadá, onde ele participaria do Pan-Americano.

Era uma carreira fulminante. Mais tarde, Miguel conseguiria uma Medalha de Bronze, como terceiro colocado no Latino-Americano de Boxe, no Chile. Mas um amador é sempre um amador, sujeito tanto as golpes de imprevisíveis adversários no ringue como as inexplicáveis “decisões superiores” nas federações. Assim, em 1968, o boxe lhe dava a segunda grande decepção: Às vésperas do embarque, seu nome era riscado da lista de atletas que disputariam os Jogos Olímpicos no México. Miguel deu então um adeus definitivo ao amadorismo, com um gratificante cartel de 45 vitórias, 3 derrotas e 3 empates. Como profissional, ganhou um novo técnico -Waldemar Zumbano, tio e ex-treinador de seu antigo ídolo, Éder Jofre-, contratado da BelBox, passou a ter uma firma especializada a cuidar de sua carreira.

Em 1970, Miguel tornou-se campeão brasileiro e 2 anos depois –já então “rankeado” na Associação Mundial de Boxe (AMB) e no Conselho Mundial de Boxe (CMB)– venceu o 1° colocado do ranking da AMB e, com isso, conseguiu o direito de disputar em janeiro de 1973 o título mundial de boxe. Foi derrotado, onde conseguiu uma revanche em fevereiro do ano seguinte, mas também foi derrotado por pontos.

Porém, em maio de 1975, no Principado de Mônaco, Miguel venceu o então campeão europeu, o espanhol José Duran, e alcançou o título mundial dos médios-ligeiros do MB. Formado em educação física, hoje, Miguel dá aulas de boxe recreativo na Academia Cia. Athletica São Paulo. Também possui uma academia em sua cidade natal, São Manuel.