UM ÁS DO BASQUETE

São-manuelense brilhou na seleção brasileira de bola ao cesto, sagrando-se campeão do mundo em 1959

As estatísticas mostram que a melhor seleção de basquete masculino é a dos Estados Unidos, país que inventou o esporte, em 1891, e o pratica com a mesma obstinação como investe em outras áreas da atividade humana. A grande nação do norte não é uma potência de primeira grandeza por mera casualidade,assim como é pacífico o entendimento de que a esquadra de Tio Sam exerce um desusado deslumbre nos amantes da bola ao cesto ao redor do planeta. Também conhecida por dream team (time dos sonhos), dada à qualidade de seus jogadores, a equipe estadunidense é sempre a favorita nos torneios de que participa. Todavia, os cestobolistas americanos não são deuses e também amargam seus dias de infortúnio, tendo em mais de uma oportunidade experimentado o sabor ácido da derrota. Em duas delas coube ao Brasil levantar a taça, a primeira em 1959; a segunda em 1963, quando a seleção canarinho fez mais bonito que os conterrâneos de Donald Trump, ocupando o primeiro lugar na disputa pelo título mundial da categoria, no Chile e no Brasil, respectivamente, um feito histórico que não mais se repetiu.

Quando o Brasil subiu ao ponto mais alto do pódio pela primeira vez, um são-manuelense despontava na equipe comandada pelo técnico Togo Renan Soares, também conhecido por Kanela, um elenco de doze cestobolistas que, por motivos óbvios, seriam recebidos como heróis assim que desembarcaram no Rio de Janeiro, à época capital do país. Na realidade, ele era titular absoluto daquele time vencedor que, para ganhar o título, participou de nove disputas, perdendo apenas uma, já na fasefinal, para a finada União Soviética (63 a 66). Seunome: Waldir Geraldo Boccardo, que nas quadras, primeiro como pivô, depois ala, atuava ao lado de outras estrelas do basquete daqueles idos como Algodão, Amaury Passos, Rosa Branca e Wlamir Marques.

Bola de chiclete – Boccardo nasceu em janeiro de 1936 e os primeiros anos de sua vida guardam semelhanças com a rotina experimentada pelos meninos de sua época. Filho do mecânico Antônio Boccardo, era grande a possibilidade de um dia, adulto, assumir os negócios do pai e se especializar no reparo de veículos automotores. O destino, todavia, escreveu um roteiro diferente para ele: Antônio foi acometido pela tuberculose e a família decidiu transferir-se para um centro maior à procura de tratamento. Foi quando São José dos Campos, no Vale do Paraíba, entrou na vida de Boccardo, um conglomerado urbano mais desenvolvido e onde o atendimento médico certamente corresponderia às expectativas. “Como a cidade respirava basquete e eu era um menino grande, acabei me interessando pelo esporte”, disse para a imprensa o filho ilustre de São Manuel. Ele media 1,94 metros de altura e, na adolescência, tinha um amigo que o comparava a uma bolade chiclete porque, segundo dizia, “a cada dia eu ficavamaior”. Aos jornalistas ele contou, tempos atrás, que no início de sua caminhada como pretenso jogador debola ao cesto era um fiasco nas quadras. “Muito treino,perseverança e vontade de vencer, entretanto, me fezficar bom”, salientou. Tão bom que logo despertou ointeresse do São José, onde jogou por um breve período, e, no fim dos anos 1950, após transferir-se para oRio de Janeiro, do Vasco da Gama e do Botafogo. Depois de uma curta passagem pelos dois grandes times cariocas, Boccardo foi contratado pelo Flamengo, uma parceria que se estenderia por quinze longos anos.

Além do festejado primeiro lugar no campeonato mundial no Chile, o cestobolista são-manuelense colecionou outros importantes triunfos com a camisa da seleção brasileira: medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de Buenos Aires, em 1959, e nos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960, e campeão sul-americano na cidade argentina de Córdoba, no mesmo ano. Também integrou a comissão técnica que ajudou oBrasil a se classificar no terceiro lugar no CampeonatoMundial de Basquetebol das Filipinas, em 1978. “Já como técnico”, conforme depoimento do atleta a um jornal do Rio de Janeiro, “minhas principais conquistas foram o campeonato estadual, de 1974, pelo Fluminense; o de 1977, pelo Flamengo; e, como auxiliar técnico, o campeonato brasileiro pelo extinto Pitt/Corinthians, da cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul, em 1994”. Ele destacava que esta foi a primeira vez que um time de fora de São Paulo sagrou-se campeão do certame nacional. Boccardo morreu em 2018, aos 82 anos.

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