A voz mais bonita

Falou ao microfone da Clube de 1949 a 1958 e arrebanhou uma multidão de ouvintes

O plano era circular pela quermesse, comer alguma coisa e retornar para casa não muito tarde. A proposta de Alberto Santarém Júnior, filho de guarda-livros (contabilista) e já iniciado no ramo, não diferenciava do passeio programado pelos jovens da sua idade naquela noite de 1949. Talvez um flerte ou, quem sabe, uma “passadinha” pelas barracas de tiro e arremesso de argola. Nada mais. No caso de Santarém, todavia, o passeio reservaria algo não imaginado e que não fazia parte de suas metas. Ele saiu de casa ouvinte da Rádio Clube de São Manuel, na oportunidade com 10 anos de atividade, e retornou locutor em vias de ser contratado pela emissora.

Abatido por um lancinante desarranjo estomacal, o locutor oficial da festa beneficente ficou impossibilitado de conduzir o evento até o fim, e sem saber a quem recorrer recomendou para o trabalho o amigo Santarém, que aceitou o desafio mesmo sem experiência e familiaridade como microfone. O diretor-superintendente da rádio, José Leandro de Barros Pimentel, que também visitava a quermesse, ficou atraído pela voz marcante que vinha de um alto-falante pendurado no alto de um pontalete de madeira. Santarém, então, foi convidado a fazer um teste de locução e aprovado passou a integrar os quadros da emissora, naquela época, PRI-6, hoje, ZYK665. O teste foi conduzido pelo então professor Lino José Saglietti, gerente da rádio naqueles idos e também dono de uma voz notável.

Nova vinheta
O guarda-livros, que também atuou no juvenil da Associação Atlética São-Manuelense e se destacou como baterista da Orquestra Bandeirante, comandada pelo clarinetista Pedro Catalan, na década de 1950, dedicou-se à Clube com afinco por quase dez anos. Esteve à frente de programas de sucesso da emissora, tais como “Sociais”, diariamente das 11h às 11h20, e “Um Cantinho para Você”, pelas manhãs, recheado de crônicas e poemas para enamorados, e a participação de ouvintes de toda a região. “Fui responsável, ainda, pelo `Vespertino Noticioso I-6’, jornalístico diário que ia ar às 17 horas”, conta Santarém. O formato de “Sociais”, tal como hoje, compreendia a divulgação de notícias locais e a apresentação dos aniversariantes do dia. Este é, certamente, um dos programas mais antigos da radiofonia brasileira: foi criado nos anos 1940, o que representa dizer que está no ar há mais de 70 anos.

A qualidade da voz de Santarém levou-o a participar, em anos passados, de acontecimentos de relevância para o município. Por exemplo, na década de 1960, como parte das festividades relativas à inauguração do Cine São Manuel, já desativado, ele foi o apresentador do espetáculo conduzido pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, nas dependências daquela casa de projeção, evento transmitido pela Rádio Clube. Na mesma década, quando São Manuel foi à televisão para concorrer com a cidade de Valparaíso no programa “Cidade contra Cidade”, da TVS, ele estava lá, como narrador pelo lado dos são-manuelenses. “A saudosa professora Rosa Innocenti Dinhane elaborou o texto e participou do programa comigo”, recorda-se Santarém. O programa do canal de Sílvio Santos resumia-se a uma competição de provas entre duas cidades em nome de uma premiação social: uma ambulância zero quilômetro. São Manuel foi a vencedora. Em 1992, “fui mestre de cerimônia da instalação em São Manuel do I Círculo Monárquico Municipal do Brasil, evento que contou com a presença do príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança”, relata Santarém. Apesar de estar afastado dos microfones da Rádio Clube há bastante tempo, é dele a voz na nova vinheta de apresentação da emissora.

M.R. Nítolo

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