Um brinde à longevidade

Sob o comando da quarta geração, varejo são-manuelense avança no tempo

Na relação das empresas comerciais mais antigasdo Brasil despontam firmas centenárias que continu- am ativas e com fôlego para ir em frente. Até onde se sabe a mais idosa delas, em atividade desde 1846, começou vendendo partituras a pedido da família imperial e chegou aos dias atuais negociando instrumentos musicais na capital paulista. Nesse ranking figura um varejo são-manuelense possivelmente listado entre os mais longevos, fato conhecido por poucos habitantes do município a despeito de servir como exemplo bem-acabado de empreendedorismo vitorioso que foge do habitual. Fundado em 1875, portanto há 144 anos, ocupa desde o princípio o mesmo ponto comercial, permitindo supor que o imóvel que lhe dá abrigo tem basicamente a mesma idade. Acertou quem pensou na Casa Salemme.

Plantada na Rua 15 de Novembro, na parte central da cidade, e se valendo de instalações despojadas de fausto e ostentação, o local ainda guarda semelhanças com o interior da loja aberta pelo imigrante italiano Pietro Salemme, natural da Calábria, cinco anos após o desbravador Manoel Gomes de Faria ter fundado São Manuel. Originalmente registrada como “Pedro Salemme”, o negócio daquele oriundi solitário floresceu rapidamente – ele veio sozinho da Europa e tinha 21 anos quando desembarcou em Santos.

“Meu bisavô atravessou o Atlântico não para tra- balhar na lavoura de café, mas para criar raízes no comércio”, diz Carlos Salemme Filho, também conhecido por Carlitinho, o atual timoneiro do negócio. Ele acentua que o italiano que deu origem à família em São Manuel importava armas da Bélgica, fabri-cava canivetes e afiava facas. Anúncio em jornal local publicado nos primórdios de 1900 comunicava aos são-manuelenses que a “Casa Salemme dispõe de grande depósito de armas e cartuchos de todas as qualidades, espingardas, revólveres finíssimos, garruchas de várias espécies e utensílios para pesca”. Também avisava que vinha operando com um magníficodepósito de máquinas de costura. O bisneto de Pie- tro relata que as armas trazidas da Europa chegavam timbradas com o nome do fundador do varejo, e que a loja chegou a fazer importações seguidas de má- quinas de costura da Singer Corporation, nos Estados Unidos. Um tino nato para os negócios que encontrou ressonância na maneira de trabalhar do filho Eugênio, que assumiu o comando da firma quando o atirado calabrês morreu, em 1920, aos 66 anos de idade.

Pesca e chave – Tão logo assumiu o posto, o novo administrador fez um providencial rearranjo nas atividades do estabelecimento, focando os negócios na comercialização de produtos para caça e pesca e na fabricação do canivete tipo bota de moça, novidade que fez enorme sucesso até deixar de ser produzida décadas atrás, encontrou rapidamente uma legião de admiradores e se transformou numa espécie de mimo ideal para ser dado como presente. Talhado à mão, explica Carlitinho, o canivete conferia ao usuário a possibilidade de, entre outras propriedades, abrir tampas de garrafas. Com a morte de Eugênio, em 1970, Carlos e Pedro, filhos de Eugênio,assumiram a direção da empresa. Os dois vinham trabalhando no negócio desde pequenos. Eugênio já tinha em mente a perpetuação do empreendimento, por isso levou os filhos a se identificarem com o ofício que havia aprendido com o pai.

Com o tempo, Pedro se desligou da loja, abraçou o magistério e deixou o varejo da família nas mãos de Carlos, pai de Carlitinho, comerciante que atra- vessou a vida como Carlito, conforme era chamado por familiares e amigos. A Casa Salemme afastou-se dos negócios com armas, ainda nos anos 1980, passando a dedicar-se à venda de equipamentos para pesca, filão de mercado que responde no momento por quase 100% de seu faturamento. Isto porque os serviços de chaveiro passaram ultimamente a integrar o mix de serviços disponibilizados pela empresa. Por questões de saúde, Carlito, já falecido, afastou-se da loja em 1998, sendo substituído por Carlitinho, representante da quarta geração que também havia sido preparado pelo pai para um dia ocupar a função. Perguntado sobre o futuro do varejo da família, se quando chegar a hora, a quinta geração estará pronta a assumir o leme do negócio, o bisneto de Pietro Salemme diz que, por ora, não há resposta, apenas um ponto de interrogação.

MR.Nítolo

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