Edição 610 de 22/03/2019

Um brinde à longevidade

Na relação das empresas comerciais mais antigas do Brasil despontam firmas centenárias que continuam ativas e com fôlego para ir em frente. Até onde se sabe a mais idosa delas, em atividade desde 1846, começou vendendo partituras a pedido da família imperial e chegou aos dias atuais negociando instrumentos musicais na capital paulista. Nesse ranking figura um varejo são-manuelense possivelmente listado entre os mais longevos, fato conhecido por poucos habitantes do município a despeito de servir como exemplo bem-acabado de empreendedorismo vitorioso que foge do habitual. Fundado em 1875, portanto há 144 anos, ocupa desde o princípio o mesmo ponto comercial, permitindo supor que o imóvel que lhe dá abrigo tem basicamente a mesma idade. Acertou quem pensou na Casa Salemme. 

Plantada na Rua 15 de Novembro, na parte central da cidade, e se valendo de instalações despojadas de fausto e ostentação, o local ainda guarda semelhanças com o interior da loja aberta pelo imigrante italiano Pietro Salemme, natural da Calábria, cinco anos após o desbravador Manoel Gomes de Faria ter fundado São Manuel. Originalmente registrada como “Pedro Salemme”, o negócio daquele oriundi solitário floresceu rapidamente – ele veio sozinho da Europa e tinha 21 anos quando desembarcou em Santos. 

“Meu bisavô atravessou o Atlântico não para trabalhar na lavoura de café, mas para criar raízes no comércio”, diz Carlos Salemme Filho, também conhecido por Carlitinho, o atual timoneiro do negócio.  Ele acentua que o italiano que deu origem à família em São Manuel importava armas da Bélgica, fabricava canivetes e afiava facas. Anúncio em jornal local publicado nos primórdios de 1900 comunicava aos são-manuelenses que a “Casa Salemme dispõe de grande depósito de armas e cartuchos de todas as qualidades, espingardas, revólveres finíssimos, garruchas de várias espécies e utensílios para pesca”. Também avisava que vinha operando com um magnífico depósito de máquinas de costura.  O bisneto de Pietro relata que as armas trazidas da Europa chegavam timbradas com o nome do fundador do varejo, e que a loja chegou a fazer importações seguidas de máquinas de costura da Singer Corporation, nos Estados Unidos. Um tino nato para os negócios que encontrou ressonância na maneira de trabalhar do filho Eugênio, que assumiu o comando da firma quando o atirado calabrês morreu, em 1920, aos 66 anos de idade.


Pesca e chave - Tão logo assumiu o posto, o novo administrador fez um providencial rearranjo nas atividades do estabelecimento, focando os negócios na comercialização de produtos para caça e pesca e na fabricação do canivete tipo bota de moça, novidade que fez enorme sucesso até deixar de ser produzida décadas atrás, encontrou rapidamente uma legião de admiradores e se transformou numa espécie de mimo ideal para ser dado como presente. Talhado à mão, explica Carlitinho, o canivete conferia ao usuário a possibilidade de, entre outras propriedades, abrir tampas de garrafas. Com a morte de Eugênio, em 1970, Carlos e Pedro, filhos de Eugênio, assumiram a direção da empresa. Os dois vinham trabalhando no negócio desde pequenos. Eugênio já tinha em mente a perpetuação do empreendimento, por isso levou os filhos a se identificarem com o ofício que havia aprendido com o pai.

Com o tempo, Pedro se desligou da loja, abraçou o magistério e deixou o varejo da família nas mãos de Carlos, pai de Carlitinho, comerciante que atravessou a vida como Carlito, conforme era chamado por familiares e amigos. A Casa Salemme afastou-se dos negócios com armas, ainda nos anos 1980, passando a dedicar-se à venda de equipamentos para pesca, filão de mercado que responde no momento por quase 100% de seu faturamento. Isto porque os serviços de chaveiro passaram ultimamente a integrar o mix de serviços disponibilizados pela empresa. Por questões de saúde, Carlito, já falecido, afastou-se da loja em 1998, sendo substituído por Carlitinho, representante da quarta geração que também havia sido preparado pelo pai para um dia ocupar a função. Perguntado sobre o futuro do varejo da família, se quando chegar a hora, a quinta geração estará pronta a assumir o leme do negócio, o bisneto de Pietro Salemme diz que, por ora, não há resposta, apenas um ponto de interrogação.                 MR.Nítolo

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